
- Essa noite, depois de muito tempo a negar e tentar esquecer, visitei meu coração, e ele, por incrivel que pareça, ainda era bonito, apesar do tempo que eu o larguei a esmo, ele continuava bem cuidado, não era, afinal, tão mal quanto eu tentava me convencer.
Sua grama era de um verde brilhante e sua paisagem tinha se tornando mais bonita que antes, tinham muitas mais árvores, algumas que eu na minha última visita eu nem tinha ideia de suas existências, e agora eram as mais bonitas, floridas, e muitos dos brotinhos que para mim a importância era pouca também tiveram o mesmo destino, apesar de eu ter desistido, aparentava como se meus cuidados fossem muito maiores do que foram um dia.
Mas em contrapartida, aquela velha árvore grande e frutificada que eu havia deixado a considerando "a melhor" e que nem aquelas pequenas pragas podiam acabar, agora, só restavam alguns galhos folheados, estava doente, eu tinha tomado caminhos muito diferentes daquela amizade antiga e as pequenas pragas tinham se tornado grandes, terríveis. Isso não doeu tanto quando me deparei com a minha outra antiga preferida, estava completamente seca, sem nenhuma explicação, sem nenhum vestígio, se não houvesse a sua lembrança, era como se nunca tivesse existido.
Mais em frente, eu podia ver a cascata de sentimentos, suas águas ainda eram transparentes, mas não tinham a mesma pureza de antes, e agora não se podia ver o seu fundo, e quando vi a mim mesma no seu reflexo, notei que também estava diferente: Haviam muitas cicatrizes.
Então notei que não estava mais sozinha, nas bordas do meu jardim coração vi uma pessoa andando, mas nunca a entrar realmente nele, apesar da vontade de dizer "vá embora", eu não conseguia, porque estando ali, no meu coração, eu não podia mentir, eu queria que ele entrasse e ficasse.
Mas ele permaneceu em silêncio, aquele seu silêncio agonizante que deixava explicito sua desaprovação, e dessa forma ele ficou durante muito tempo, mas saiu e foi embora, sem nenhum palavra, eu sempre fui sincera com quem apenas me enganou, e seu hábito de omitir os fatos nos afastou mais do que eu própria já conseguia.
Havia uma parte mais elevada, ao ir lá vi as estátuas antigas e destruidas de um passado que nem eu tenho conhecimento, e um banco, eu costumava a sentar nele para apreciar a paisagem, e ali sentei de novo, e logo vi ao meus pés o canteiro de margaridas secas, as paixonites acabadas, a dele ainda mantinha a coloração verde do cabo, mas todas suas pétalas de esperança haviam caído, e se antes, eu chorava suas mortes com amargura, desta vez pouco dei importância, pude ver a infantilidade que se escondia em todas elas.
Sumiram de minha atenção, que se voltou para uma estranha árvore logo ali perto, ela era podada e muito contida, impossivel para um lugar abandonado a tanto tempo, ela parecia comigo e minha mania de me cobrar de tudo, de conter-me. A sua sombra, nascia um botão, eram tulipas vermelhas, amores perfeitos, que substituiam em breve aquelas velhas margaridas secas, só bastava eu voltar mais vezes, voltar a cuidar de meu coração, plantar mais árvores, se convencer que ele era bom, e ter paciência, até o dia de seu florecer.